Antes do burnout vem a desconfiança: quando as pessoas deixam de acreditar na organização

Antes do burnout vem a desconfiança: quando as pessoas deixam de acreditar na organização

A saúde mental no trabalho não se deteriora apenas quando a carga se torna excessiva. Deteriora-se quando as pessoas deixam de confiar que as regras são claras, as decisões são justas e a palavra da organização é previsível.

No Dia Mundial da Saúde Mental, talvez devamos fazer uma pergunta diferente.

A pergunta habitual é:

“Como estão os nossos colaboradores?”

É uma pergunta importante.

Mas não chega.

Talvez devamos acrescentar outras:

As pessoas compreendem o que esperamos delas?

Conseguem antecipar razoavelmente como as decisões são tomadas?

Sentem que podem levantar um problema sem se colocarem em risco?

Reconhecem coerência entre aquilo que a organização diz e aquilo que faz?

Confiam nas estruturas onde trabalham?

Porque saúde mental organizacional não é apenas identificar quem está exausto.

É também perceber o que, no sistema de trabalho, está a produzir desgaste antes de ele se transformar em doença, ausência ou saída.

A desconfiança não é uma condição obrigatória antes do burnout, nem todas as situações de burnout resultam de problemas organizacionais.

Mas há organizações onde, muito antes de alguém parar de trabalhar, as pessoas já começaram a deixar de acreditar.

E esse é um sinal que vale a pena não ignorar.

Há colaboradores que ainda não estão em burnout.

Continuam a trabalhar. Entregam. Comparecem às reuniões. Respondem aos emails. Cumprimentam a equipa.

Mas já deixaram de acreditar.

Deixaram de acreditar que vale a pena levantar um problema.
Que uma decisão será explicada.
Que aquilo que hoje é prioridade continuará a sê-lo amanhã.
Que critérios semelhantes serão aplicados a pessoas semelhantes.
Que uma promessa feita pela organização terá necessariamente consequência na prática.

E esta mudança é particularmente importante porque, durante algum tempo, pode passar completamente despercebida.

A pessoa continua presente. O que começa a desaparecer é outra coisa: a confiança para falar, propor, questionar, experimentar e envolver-se.

Nem todo o desgaste começa pela exaustão

Quando falamos de saúde mental no trabalho, a conversa tende rapidamente a centrar-se no burnout.

É compreensível. A exaustão é visível. As baixas são contabilizáveis. As saídas têm impacto. Os casos graves obrigam a organização a reagir.

Mas o desgaste psicossocial pode começar muito antes.

Pode começar quando uma equipa recebe sucessivamente mensagens contraditórias.

Quando as prioridades mudam sem explicação.

Quando as pessoas percebem que determinados problemas são conhecidos há meses, mas nada acontece.

Quando se pede participação, mas as decisões parecem já estar tomadas.

Quando comportamentos semelhantes têm consequências diferentes consoante quem os pratica.

Ou quando existe uma distância crescente entre aquilo que a organização comunica e aquilo que os trabalhadores experienciam.

Nenhum destes episódios, isoladamente, significa necessariamente um problema grave.

O risco está na repetição.

A desconfiança também é uma estratégia de proteção

Quando a confiança diminui, é frequente interpretar algumas mudanças como falta de motivação ou resistência à mudança.

Mas há outra leitura possível.

O colaborador deixa de questionar porque concluiu que questionar não altera nada.

Deixa de apresentar ideias porque não quer investir energia numa proposta que provavelmente desaparecerá.

Evita assumir riscos porque não sabe como um eventual erro será interpretado.

Procura confirmar tudo por escrito.

Partilha menos informação.

Protege-se mais.

E começa a fazer exatamente aquilo que lhe é pedido — e pouco mais.

Não necessariamente porque deixou de se importar com o trabalho, mas porque reduziu o grau de exposição que está disposto a aceitar perante a organização.

O problema não se resolve com uma iniciativa de bem-estar

É precisamente aqui que algumas estratégias de saúde mental ficam aquém.

Uma organização pode disponibilizar consultas de Psicologia, promover mindfulness, oferecer workshops sobre gestão de stress ou desenvolver campanhas de sensibilização.

Tudo isso pode ser útil.

Mas não corrige uma equipa onde ninguém sabe verdadeiramente quem decide.

Não compensa objetivos permanentemente contraditórios.

Não resolve a sensação de injustiça.

Não substitui feedback.

Não cria segurança psicológica numa chefia onde discordar tem consequências.

E não devolve credibilidade a compromissos sistematicamente anunciados e não cumpridos.

Há problemas de saúde mental no trabalho que precisam de apoio individual. Há outros que exigem intervenção sobre a própria organização do trabalho.

Confundir estes dois níveis pode levar a uma consequência particularmente injusta: tentar aumentar a capacidade de adaptação das pessoas a um contexto que continua a produzir o problema.

A confiança não significa concordar com todas as decisões

Uma organização saudável não é uma organização onde todos estão satisfeitos, onde nunca existem mudanças difíceis ou onde todas as decisões são consensuais.

As empresas têm de reorganizar equipas. Alterar prioridades. Controlar custos. Tomar decisões impopulares.

Confiança organizacional não significa ausência de conflito. Significa que, mesmo perante uma decisão difícil, as pessoas conseguem perceber como foi tomada, quais foram os critérios utilizados, o que podem esperar a seguir e de que forma serão tratadas.

Há sinais que vale a pena procurar antes do burnout

As organizações não precisam de esperar pela exaustão para perceber que alguma coisa está a mudar.

Vale a pena prestar atenção quando:

  • as pessoas deixam progressivamente de colocar questões;
  • os problemas passam a ser discutidos nos corredores, mas não nas reuniões;
  • aumenta a necessidade de confirmação e autoproteção;
  • existe cinismo perante novas iniciativas;
  • as equipas antecipam que “isto também não vai dar em nada”;
  • as chefias intermédias passam grande parte do tempo a traduzir ou justificar decisões que elas próprias não conseguem explicar;
  • diminui a disponibilidade para assumir responsabilidade para além do estritamente necessário.

Nenhum destes indicadores deve ser analisado isoladamente.

Mas, em conjunto, podem dizer muito sobre o estado psicológico de uma organização.

Neste Dia Mundial da Saúde Mental, talvez o desafio para as organizações não seja apenas perguntar o que podem fazer pela saúde mental dos seus colaboradores.

Talvez seja também terem coragem para perguntar: o que existe na forma como trabalhamos que pode estar a deteriorá-la?

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